BASTA, não é mais possível continuar desta forma. Caso contrário, será necessário tirar a faixa “Ordem e Progresso” da nossa bandeira, porque assim vira piada.
Na Europa é de péssimo gosto escrever uma opinião ou relatar um fato de forma pessoal: tudo deve ser expresso na terceira pessoa, para não ser acusado de parcialidade. Ao contrário, no nosso Brasil somos mais instintivos, e o formalismo foi abandonado há muito tempo. Eis o motivo de apresentar ideias baseadas na minha experiência de vida.
Fui levada para a Europa ainda criança, em 1970. Mesmo tendo metade de sangue italiano, a Itália sempre foi, para mim, um exílio. É inegável: escrevo e falo um excelente italiano; ao contrário, tenho dificuldades com a minha língua materna. Aqui, a educação e o modo de viver são muito diferentes do meu conceito. Mas, às vezes, me pergunto se ainda existe no Brasil aquilo que me ensinaram quando pequena.
Tive, porém, a oportunidade de estudar e conviver com pessoas de ótimo nível intelectual, em um país onde, desde o início do século passado, todos tiveram garantido acesso a uma escolarização pública de alto nível.
Vivendo entre os dois países, sempre observei o Brasil como quem vê a “banda passar”. O problema é que essa banda, há mais de 50 anos, está completamente fora do ritmo.
Certamente o jeitinho brasileiro, o “deixa pra lá”, contribuíram muito para determinar e marcar o momento presente. Com o fim da ditadura, a camada mais privilegiada e instruída delegou aos políticos carta branca: não quis sujar as mãos nem perder tempo com disputas parlamentares.
E quem ocupou os cargos políticos? Raros idealistas. Em sua maioria, pessoas já inseridas em grupos de influência, interessadas em negociatas — esquerda ou direita, pouca diferença fazia. Famílias depositárias de poder, como se ainda estivéssemos em tempos de capitanias ou coronelismo, mesmo em plena era pós-colonial.
Impressiona a falta de visão daqueles que achavam “entender de gente”. O Brasil sempre teve uma riqueza imensa, e isso só aumentou a cobiça, tanto interna quanto externa.
O que aconteceu? Nada mais, nada menos que a depredação e exploração contínua, enquanto a maioria tocava a viola.
Resultado: em 1965 a população era de aproximadamente 84 milhões; hoje passa de 200 milhões. Para se ter uma ideia, no mesmo período em que o Brasil cresceu cerca de 150%, os Estados Unidos cresceram pouco mais de 60%.
Isso exigiria, de qualquer governo minimamente lógico, um plano econômico capaz de sustentar educação, saúde e desenvolvimento.
Mas a ignorância foi tamanha que ninguém percebeu o abismo se formando. Quem tinha algo a perder começou a construir jaulas ao redor de si. Poucos entenderam que estávamos ultrapassando um limite perigoso.
Os políticos, como no futebol, criaram “times” para que o povo extravase. Pena que os problemas continuam.
Ao mesmo tempo, dilapidaram a riqueza do país — diretamente ou por meio de manobras — e, como os três macacos, alternam entre: não vejo, não ouço, não falo… depende do momento.
O que fazer?
Quando a casa está muito suja, é preciso chamar uma faxineira das antigas — ou, nos tempos modernos, uma empresa de limpeza — para fazer uma limpeza geral.
Todo mundo deve sair. É preciso recomeçar do zero.
Uma população imensa deve agir como em estado de emergência: cada um precisa colocar a mão na massa. Cada um, de acordo com suas capacidades, deve servir — da pequena cidade até Brasília.
Chamar um contador comprovadamente honesto para administrar um vilarejo, auxiliado por donas de casa que sabem fechar as contas no fim do mês.
Nos ministérios econômicos, colocar professores altamente qualificados, com ideias fora do padrão, obrigados a encontrar soluções reais em conjunto.
Usar os meios de comunicação de massa: todas as reuniões devem ser transmitidas ao vivo, para que o povo veja como cada um se comporta diante do outro.
Isso deve ser replicado em todos os ministérios e administrações.
A corrupção é gigantesca, e não há outra saída.
Aqui fora também não existem santos. Quando ouvia falar dos “mercados emergentes”, do BRIC, sempre tive arrepios. Sempre desconfiei — talvez porque “bric-à-brac”, em francês, significa mercadoria barata vendida em feira, e aquele “B” inicial era de Brasil.
Tenho certeza de uma coisa: nada é de graça.
A incompetência da classe política brasileira nos levou a vender — por quase nada — o patrimônio que pertence a nós e aos nossos filhos.
ACORDA, BRASIL!
— Rossana vanderBorg
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