Tudo isso tem muito a ver com roubalheira e corrupção, sentidas pela população desde o Brasil Império. O que muda é a proporção.
Alguém começa a perceber que o “Quinto” cobrado pelos portugueses era quase nada em comparação aos “dois quintos” de hoje.
Provavelmente, sem a Inconfidência — nascida justamente para abolir esse imposto — hoje estaríamos ao lado de Portugal, sob a proteção do Mercado Comum Europeu. Aquela Europa sonhada por milhões de pessoas que arriscam a vida em barcos ou a pé, na esperança de encontrar dignidade, segurança e bem-estar.
Mas a história não se faz com “se”.
Lembro-me de um velho tio que atribuía os problemas da sociedade brasileira ao instinto predatório de seus habitantes. Dizia ele que era o DNA dos primeiros colonizadores, que transmitiram aos que vieram depois não o espírito de construir, mas o de explorar.
Com o fim da ditadura militar, a população viveu uma espécie de embriaguez por excesso de liberdade, sem saber como lidar com esse bem tão precioso.
Faltava cultura. Faltava senso cívico. Faltava identidade.
Após anos de estagnação econômica, de processos educativos e sociais caminhando a passos de tartaruga em um mundo acelerado, muitos acharam um espetáculo entregar um poder imenso a alguém sem preparo, sem cultura, pobre de recursos — e, sobretudo, de espírito.
Para quem observa de fora, deve ter sido quase uma diversão brincar com essa turma.
Para os que não conhecem a lenda de Robin Hood, vale lembrar: um dos heróis mais populares da Inglaterra, lutava para ajudar os pobres a sobreviver em meio à desigualdade. Era fiel ao legítimo herdeiro da coroa, Ricardo Coração de Leão, e combatia o usurpador João Sem Terra, que empobrecia a população com impostos cada vez mais altos.
Mas há um detalhe essencial: Robin Hood era um nobre.
Naquela época, isso significava alguém com capacidade intelectual e condições econômicas para compreender e administrar a realidade.
Traduzindo: é inverossímil imaginar que alguém que passou fome, diante de um banquete farto, não acabe exagerando.
Seria maravilhoso acreditar que alguém que nunca teve casa se contentaria com uma moradia digna, e não com um palacete.
Fica o registro para memória futura.
O bem-estar econômico e a instrução são os únicos antídotos contra a formação de uma sociedade hierárquica baseada na pobreza e na ignorância.
O que incomoda em discursos como o do “Jubileu da Misericórdia” é a interpretação distorcida da frase: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.
Esses “pobres de espírito” não são os ignorantes ou resignados, mas aqueles conscientes dos limites humanos, livres da avidez e do supérfluo.
O que assusta é outra coisa: o acomodamento.
A aceitação da injustiça como se fosse um caminho para o céu.
Disso não precisamos.
Já tivemos disso mais do que suficiente.
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