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| Rio de Janeiro |
Os brasileiros modernos parecem conhecer apenas o tempo presente. Não têm qualquer vontade de olhar para o passado — essencial para sair de situações desfavoráveis — e o futuro, entre superstição e fatalismo, não exerce nenhum fascínio. Isso, somado à inexperiência, faz com que o riquíssimo Brasil, após alguns passos em frente, diante das emergências dê regularmente um salto para trás.
Nos primeiros anos do século XX, o país gozava de uma boa economia, baseada na política do “café com leite”, já que café e açúcar eram os principais produtos de exportação. Nos anos 20, a queda do preço do café provocou uma forte depressão, favorecendo os opositores do regime oligárquico dos latifundiários.
A emergir foi Getúlio Vargas, advogado proveniente de uma família rica e poderosa. Após perder as eleições, em 1937 tomou o poder com um golpe de Estado, instaurando uma ditadura. Teve simpatias por Hitler e Mussolini, mas, depois de Pearl Harbor, os Estados Unidos o empurraram a alinhar-se com os Aliados, enviando tropas para a Itália e para o Norte da África. Assim, por conveniência mais do que por convicção, acabou do lado certo da história.
Deposto posteriormente por um pronunciamento militar, o Brasil saiu dessa fase com eleições livres, uma Constituição democrática e um sistema federativo.
Em 1950, Vargas voltou ao poder, mas sem uma maioria sólida. Entre crise econômica e corrupção generalizada, em 1954 suicidou-se. Antes, porém, havia criado a Petrobrás, o monopólio estatal do petróleo: um elo direto com a situação atual.
A operação “Lava Jato”, descoberta pela polícia federal, leva o nome de um posto de gasolina onde ocorria a lavagem de dinheiro. As principais empreiteiras pagavam propinas a políticos corruptos em troca de contratos públicos, sobretudo com a Petrobrás.
Essa empresa emprega cerca de 80.000 pessoas, que se tornam mais de 200.000 considerando o efeito indireto. Uma máquina enorme, portanto, também para a distribuição de favores.
No entanto, o entusiasmo pelos campos descobertos em 2007, a 300 km da costa, desapareceu. A avaliação da empresa, que em 2008 se aproximava dos 200 bilhões de euros, caiu 85%.
Para compreender realmente o problema brasileiro, é preciso olhar para os números reais.
A população ultrapassa os 200 milhões de pessoas, sem contar as crianças sem identidade, nascidas e criadas nas ruas.
No Brasil registram-se mais homicídios em um ano do que mortes na guerra civil síria. Segundo dados da ONU de 2012, foram 42.000 vítimas. Das 50 cidades mais violentas do mundo, 16 são brasileiras.
Em 2013, o PIB era de 2,246 trilhões de dólares, sétimo lugar mundial.
Mas o PIB é um número útil apenas para propaganda.
O que realmente importa é o PPA (paridade do poder de compra per capita), que mede o bem-estar real. E aqui o Brasil despenca para a 81ª posição, com 11.747 dólares per capita.
Para entender melhor: Portugal, muito menor, no mesmo ano tinha um PPA de 23.047 dólares e ocupava a 45ª posição.
Vale a história contada por Trilussa: se um come um frango e outro nada, na média comeram meio frango. Mas um continua com fome.
É exatamente isso que acontece no Brasil.
A riqueza cresce, mas concentra-se nas mãos de poucos: políticos, empresários, elites locais. Às vezes distribuem alguma “asa”, mas o frango inteiro fica com eles.
A Petrobrás foi saqueada com tal voracidade que a dívida é três vezes superior à liquidez. Não bastam desculpas sobre investimentos errados ou o preço do petróleo: é preciso olhar para os anos de lucros e para as responsabilidades políticas.
Neste ponto, é legítimo perguntar se não seria necessário reduzir o poder do presidente, que no Brasil acumula as funções de chefe de Estado e de governo, concentrando uma autoridade enorme numa democracia jovem, com forte pobreza e baixo nível de instrução, inserida num continente marcado por tradições de “caudilhos”.
A falta de preparo da classe política é proporcional à sua voracidade. Da pequena cidade à metrópole, os políticos saqueiam recursos ignorando pobreza, segurança, infraestrutura, saúde e educação.
Nas melhores universidades públicas, os pobres estão quase ausentes, porque não têm acesso às escolas privadas necessárias para passar nos exames de ingresso.
A crise financeira global, o desaceleramento da China, a queda das commodities e o fim das políticas monetárias expansionistas estão agravando a situação.
Anuncia-se um período difícil.
A esperança permanece na parte saudável da sociedade: aqueles que ficaram fora dos jogos políticos, que tiveram experiências no exterior, os jovens que não vivem apenas de consumo e hedonismo.
A riqueza do Brasil é como o tesouro de Ali Babá.
Não pode ser deixada nas mãos do quadragésimo primeiro ladrão.
— Rossana vanderBorg
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