Por alguns instantes pensei na mais famosa Cinderela, quando acabei de ler um artigo ontem no mais importante jornal italiano, Il Corriere della Sera, sobre o filme Que horas ela volta?, com Regina Casé. O jornalista conta que a atriz foi premiada pelo papel de Val no Festival de Sundance e que o filme será apresentado agora nos cinemas italianos.
Já a tradução modifica o título, que de pergunta passa a exclamativo, afirmando a chegada da filha, em vez de questionar a hora do retorno. O artigo coloca em letras grandes, abaixo de uma foto de Jéssica, a seguinte frase:
— se uma jovem rebelde entra na piscina, quebra os velhos equilíbrios sociais.
Daqui parte a análise de um duplo retrato do Brasil, onde as novas gerações — os filhos dos pobres — pedem os mesmos direitos dos mais ricos, na contraposição entre uma nação arcaica e uma moderna.
Vamos dizer que o filme é uma versão mais humilde do famoso Sabrina. Em 1954, a atriz que interpretou a filha do motorista de uma família rica americana, que volta dos estudos na França transformada em uma jovem sofisticada, foi Audrey Hepburn. Para quem se lembra, nos anos 90 houve um remake com Julia Ormond e Harrison Ford.
O crítico italiano conta a história de Val, doméstica que é também mãe “putativa” de Fabinho, filho de um casal rico paulista. Obrigada pela miséria a trabalhar longe, ela sustenta a própria filha. A chegada da jovem para terminar os estudos cria uma convivência difícil, sobretudo porque ela não respeita as regras classistas: o patrão tenta seduzi-la, despertando a antipatia da patroa e, além disso, ela não é submissa como a mãe.
Tudo bem, achamos excelente quando se fala do Brasil fora dos velhos estereótipos — mulheres nuas e fáceis, futebol ou violência — porém poderíamos fazer melhor? Sim, sem dúvida. Falta cultura e coragem para mostrar uma nação que é quase um continente, com uma humanidade que, mesmo entre dificuldades cotidianas, ainda é invejável.
BASTA, BRASIL, acorda. Vivemos de complexos, de um estado de inferioridade. Os jovens precisam olhar para fora, sem medo. Se falta possibilidade econômica, os meios de comunicação oferecem hoje a todos a oportunidade de sair de casa permanecendo sentados.
Foi assim nas chamadas “primaveras árabes”: vendo, através da internet, o mundo lá fora, os jovens ousaram rebelar-se. Tudo bem, foi um fracasso, mas guardam na memória uma realidade diferente e esperam tempos melhores.
E cadê os nossos jovens?
— Rossana vanderBorg
.jpg)